Eparquia Ortodoxa do Brasil

CATEQUESE DO SANTO ENCONTRO (HIPAPANTE)

Palestra catequética proferida por D. Chrisóstomo, Arcebispo da Eparquia Ortodoxa do Brasil, jurisdição da Polônia, em 15/02/2012.

Quantas grandes festas comemoramos ao longo do ano? Nós celebramos treze grandes festas incluindo a Páscoa. Sendo que destas, quatro estão ligadas à Páscoa, que é móvel, pois sua data é calculada em cima da primeira lua cheia no mês do equinócio da primavera (que para nós é o de outono). A primeira grande festa a ela ligada é o Domingo de Ramos, que é quando o Rei toma posse do Reino, de maneira “formal e material”. Mas na verdade é quando Ele institui o Reino, que é a Nova Aliança. Aí, logo depois, vem a Páscoa; nela comemoramos a crucificação, sepultamento e ressurreição. Uma semana inteira de celebrações. Quarenta dias depois há a Ascensão. Cristo ressuscita como havia prometido, convive quarenta dias com Seus Apóstolos, comprova todas aquelas promessas que tinha feito e depois parte. Dez dias depois, Pentecostes, a vinda do Paráclito. Estas quatro festas são móveis e estão intimamente interligadas.

E existem as festas fixas, aquelas que têm datas certas. Durante o ano existem nove festas fixas. A primeira delas -- lembrando que o ano litúrgico tem início em setembro -- é a Natividade da Theotokos. A segunda é a Exaltação da Santa Cruz. A terceira festa é a Apresentação da Virgem no Templo. Temos então um nascimento, uma exaltação da cruz, e uma apresentação, ok? E então vem a Natividade do Senhor. Logo depois a Teofania, o Batismo de Cristo. Após o Batismo é a festa do Santo Encontro. Das outras três, que faltam, falamos em outra ocasião, para não complicar.

Um de nossos irmãos em Cristo, cuja modéstia sua não nos permite dizer quem é, percebeu que existiam três tríades de festas. Estas nove festas podem ser agrupadas em três grupos. O que tem certa similitude com as Hierarquias Angélicas, que também são divididas em três conjuntos. O primeiro grupo de três festas é formado pela Natividade da Virgem, Exaltação da Cruz e Apresentação da Virgem ao Templo. O segundo bloco é formado pela Natividade de Cristo, Teofania -- batismo do Cristo --, e Hipapante, que é a apresentação do Senhor ao Templo.

Fizemos até agora uma “leitura” horizontal, façamos agora uma vertical. No primeiro bloco temos o Nascimento. No primeiro conjunto de festas nasceu a Virgem, e o significado aí é o Nascimento da Igreja, nasceu o Novo Templo. No segundo conjunto há o Nascimento de Cristo, que significa a encarnação do Verbo e a Nova Aliança. É a efetivação: já tem existência o Templo, e nele nasce o Sacerdote do novo Templo. A Igreja nasceu com a Virgem, mas se efetivou no Natal. Então, neste primeiro bloco estamos celebrando o Nascimento. O segundo bloco começa com a Exaltação da Santa Cruz, que significa morte e renascimento. Vimos na Festa da Exaltação que todo mundo passa por sofrimento, decepções, perda, todo mundo vive a experiência da morte. Mas existe também a morte ritual, consciente, simbólica que passa pela Cruz. E para entrar no Reino dos Céus, temos de necessariamente passar pela morte. E no caso da Virgem, a entrega dela no Templo foi uma espécie de morte. No segundo conjunto de festas temos a Teofania, o batismo de Cristo, que significa morrer e ressuscitar com Cristo. Morre o homem velho e nasce o homem novo, não é isso? Tanto é que quem não tem nome cristão troca inclusive de nome para se tornar uma nova pessoa. Então na primeira linha há o nascimento, na segunda linha a morte. No terceiro bloco temos a Apresentação. No conjunto de festas da Virgem significa concretamente a entrega da menina, o cumprimento da promessa de oferecê-la ao Templo, o encontro entre o Antigo e o Novo Templo. E no conjunto de festas do Cristo, temos o Hipapante, a apresentação do 1º filho ao Templo, que significaria a passagem do Antigo Sacerdócio para o Novo Sacerdócio.

No Judaísmo, no oitavo dia, depois da circuncisão -- e que para os cristãos se tornou a imposição do nome -- o primogênito é oferecido ao Senhor no Templo. Este é o episódio histórico por trás do Hipapante. É a entrega do primogênito ao Templo. Para nós, quarenta dias após o nascimento é o batismo da criança, em que se faz uma benção de purificação e a mãe e a criança podem entrar no santuário. Então é o que acontece. José e Maria já circuncidaram o menino, já cicatrizou, e agora é hora de oferecê-lo. É o Antigo Sacerdote olhando o menino e o reconhecendo como o Novo Sacerdote. Como se canta:

"E agora Senhor, deixa o teu servidor segundo tua palavra partir em paz. Pois os seus olhos viram a salvação que vem de ti, que Tu preparaste para ser apresentado a todos os povos, Luz que brilhará sobre todas as nações e glória de teu povo, Israel."

E o bacana é que este Novo Sacerdote, como diz o cântico, não é algo exclusivo para aquele povo. Ele vem para todas as nações. E este Novo Sacerdote institui um povo de Reis, Profetas e Sacerdotes, uma Nova Aliança. Temos de entender, portanto, que a nossa vida em Igreja não compete só a nós. Estamos em Igreja para santificar o mundo. Esta é a nossa obrigação em Igreja. Não estamos em Igreja somente para nosso proveito pessoal, é para nos prepararmos para servir ao mundo. Não é bonito isso?

Vou ler a introdução do capítulo 7 da Epístola aos Hebreus, que diz assim:

"1.Este Melquisedec, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da derrota dos reis e o abençoou,2.ao qual Abraão ofereceu o dízimo de todos os seus despojos, é, conforme seu nome indica, primeiramente "rei de justiça" e, depois, rei de Salém, isto é, "rei de paz".3.Sem pai, sem mãe, sem genealogia, a sua vida não tem começo nem fim; comparável sob todos os pontos ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre." A figura de Melquisedec é claramente uma imagem, uma prefiguração do sacerdócio Crístico .

Aqui definitivamente muda taxativamente a relação entre o homem e o sagrado, pois surge uma coisa nova e que não existia. Aqui, definitivamente fica superada a Antiga Lei. Todo o serviço que Israel devia prestar ao Senhor foi realizado de uma certa maneira. Porque está lá dito, 'Glória de Teu povo, Israel'. Israel cumpriu sua tarefa de gerar dentro de si este Novo Sacerdócio. E é este Novo Sacerdócio surgido que abole, não no sentido de negar, mas no de aperfeiçoar e ultrapassar, a Antiga Lei. Agora é uma coisa nova, e por isso não há mais aquelas teofanias de raios, de trovões etc. Agora tudo se passa em um outro nível.

Agora, o que a vivência destas festas significa para nós?

Em primeiro lugar, nós nascemos. Em segundo lugar, já experimentamos a morte do velho homem e ressuscitamos no batismo como cristãos. E em terceiro lugar, é a entrega. Esta é a história do Hipapante. Na primeira tríade de festas, ligada à Virgem, temos a preparação da vinda de Cristo. Na segunda, temos a realização da obra de salvação pelo próprio Cristo. Na última tríade temos a Anunciação, a Transfiguração e a Dormição. Na catequese da Festa da Dormição explicamos esta terceira tríade. Mas já deu para percebermos que estas festas não são soltas, nem aleatórias, nem independente. Elas estão interligadas. Uma está relacionada com as outras, prepara e leva à outra. Nesta festa do Hipapante, do Santo Encontro, do nascimento deste Novo Sacerdócio, temos de lembrar que esta é uma vocação nossa. Estamos sendo chamados a sermos templo do Espírito Santo. Temos de lembrar que na Igreja há o sacerdócio leigo. O sacerdócio não é só daqueles que colocam esta vestimenta preta, estes apenas cumprem a função sacerdotal. Mas o sacerdócio é de todos, é um serviço de sacrificar e ser sacrificado para gerar uma vida nova. Todos nós, enquanto comunidade, temos de aprender a gerar uma vida nova. Não é a vida particular de Chrisóstomo ou de Basílio ou de Maria Rita. É um modo de viver diferente, que o mundo não conhece. E é por isto que este sacerdote, Melquisedec, não tem nem pai, nem mãe, não tem genealogia, não tem templo, não tem nada. Ele é o próprio sacerdócio místico. A oração que fazemos no momento de colocar o omofórion diz: 'Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec'.

Nós vamos nos preparar nesta festa para este novo sacerdócio do qual todos nós, homens e mulheres, participamos. Todos fazemos parte deste sacerdócio. É o momento de a gente atualizar, meditar, contemplar e realizar essa entrega da nossa vida, da nossa pessoa -- já que o sacerdócio é sacrificar e ser sacrificado, como dizemos na oblação, 'aquilo que é teu, recebendo de ti, oferecemos a ti por todos e por tudo'. Quer dizer, o Novo Sacerdócio acabou com o antigo sacrifício. Não tem mais que sangrar boi, ovelha, bode, não tem que sangrar mais nada nem ninguém, pois o Sacrifício Supremo já foi realizado por Ele na Cruz, para que ninguém mais precise derramar sangue nenhum. Não tem de derramar sangue, mas tem um sacrifício a fazer, que nada mais é do que a entrega da sua própria vida.

Nós vamos sair da Festa do Hipapante para entrarmos na próxima festa, que é o Domingo de Ramos, em que estaremos proclamando que este Cristo, este Novo Sacerdote, é verdadeiramente o meu Rei. Sou súdito dele, vassalo e discípulo dele. "Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!" E o Rei toma posse do Seu Reino. Esta é a questão: isto é real? Compreendendo minhas limitações humanas, sei que ainda não será pleno. Mas em que medida é verdadeiro? Nós temos de estar atento, portanto, porque o nosso ritmo espiritual, nosso ritmo litúrgico, passa por nascer, morrer e entregar. A cada ciclo litúrgico nasce em mim uma compreensão, uma disposição de fé, nasce em mim algo novo. A cada ano litúrgico morre em mim determinados vícios, manias, fraquezas que abandono, determinadas preferências do mundo que abandono. E a cada ano me entrego mais, uma entrega interior. Vou descobrindo Cristo, entendendo e aceitando o meu caminho, a minha briga comigo mesmo e as dificuldades do mundo vai diminuindo, vou me deixando conduzir. Este é o ritmo espiritual. É como se aos pouquinhos fôssemos parindo o Cristo. Estas coisas não se passaram apenas em Jerusalém, mas em Espírito e Verdade em todas as partes do mundo e dentro de cada pessoa.

Transcrito e revisado por André Luis.